O que é o homem, senão o fruto de si mesmo?
O que resta de um homem exaurido pelos compromissos sociais, que jamais exercitou a palavra e nunca encontrou abrigo na literatura ou repouso na música? Que frutos poderia oferecer uma alma que nunca aprendeu a dialogar consigo mesma?
Caminha à margem daqueles que parecem reunir em si a riqueza de um povo inteiro, enquanto, dentro dele, tudo se coagula numa única ferida — antiga, silenciosa, alimentada por uma concepção deturpada do bem comum. Ferida que não sangra para fora, mas cresce para dentro, consumindo lentamente tudo o que ele um dia poderia ter sido.
Do lado de fora, paira o odor pútrido das almas condenadas a vagar, gangrenadas pelas oportunidades que lhes foram negadas e temperadas pelo sal do próprio pranto. Dentro dele, o Lobo ergue o focinho e saliva. Há novos sabores no ar.
O que é o homem, senão o fruto de si mesmo. Comida de lobo, que espreita na sombra. Tua ferida agora é fera, no banquete sem testemunhas sobre o túmulo de tua última quimera.
— Eliel Alves Pereira
