Truffaut tinha 27 anos e uma infância de internatos, fugas e cinemas escondidos. Les Quatre Cents Coups não pede piedade: observa. A mãe, o padrasto, o professor, o caderno de Antoine — cada um é filmado à altura da criança, sem a moral do cinema de qualidade que Truffaut havia demolido cinco anos antes.
A câmera de Henri Decaë acompanha o correr. Paris ainda não é cartão-postal: é pátio, viela, máquina de escrever roubada. Quando Antoine chega ao mar que nunca vira, o filme recusa o abraço. O freeze-frame é um jump cut do tempo: o menino fica preso no fotograma, e nós com ele.
Cannes 1959, prêmio de direção. A Nouvelle Vague deixa de ser uma briga de revista e vira um fato. Doinel voltará em outros filmes; o olhar daquele último plano, não.
