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O caderno
Glossário da vague, linha de tempo, e os filmes e autores que você guarda neste aparelho — um negativo pessoal, sem conta.

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Vocabulário
Glossário da vague
- Caméra-styloa câmera-caneta
- Ensaio de Alexandre Astruc, 1948. O cineasta deve poder escrever com a câmera como o escritor com a caneta — ideias, não só histórias. É o embrião da política dos autores.
- Politique des auteurspolítica dos autores
- Doutrina de Cahiers du Cinéma (Truffaut, Godard, Rivette, Chabrol, Rohmer): o diretor é o autor da obra, responsável por um estilo que atravessa os filmes, mesmo dentro do estúdio.
- Jump cutcorte seco
- Corte entre dois planos quase idênticos, que faz o sujeito “saltar” no quadro. Em Acossado, deixa de ser defeito de raccord e vira assinatura da vague.
- Plan-séquenceplano-sequência
- Um plano longo que cobre uma cena inteira, sem cortes. A mise en scène se resolve no interior do quadro — o contrário do jump cut, o mesmo gosto pela liberdade.
- Mise en scènecolocação em cena
- Tudo o que o autor decide no quadro: corpos, luz, duração, profundidade. Para Cahiers, é aí que mora o estilo — não no roteiro literário.
- Rive Gauchemargem esquerda
- Grupo paralelo à vague de Cahiers: Varda, Resnais, Marker, Demy, Duras. Mais ligado à literatura, às artes e ao documentário; menos cinéfilo de Hollywood.
- Cinema Novo
- Movimento brasileiro dos anos 1960 (Glauber, Diegues, Saraceni, Hirszman, Guerra). Lê o neorrealismo e a vague com a “estética da fome”: a câmera na mão como arma, não só como estilo.
- Contra-campocontre-champ
- O plano que responde a outro — o olhar de volta. Nesta revista, também a ideia de que todo cinema autoral existe em diálogo: Paris e o sertão, Cahiers e a margem.
- Direct soundsom direto
- Gravar o som no set, com os acidentes da rua. A vague oscila entre o direto e a pós-sonorização; o que importa é recusar o som de estúdio que limpa o mundo.
- Découpage
- A divisão da cena em planos. O cinema clássico esconde o découpage; a vague o exibe — ou o abandona, deixando o plano viver além da sua função narrativa.
Cronologia
Vinte anos de corte
1948
Astruc, a câmera-caneta
Alexandre Astruc publica “Naissance d’une nouvelle avant-garde: la caméra-stylo”. O cineasta como escritor.
1951
Cahiers du Cinéma
André Bazin e Jacques Doniol-Valcroze fundam a revista. A crítica vira canteiro de futuros diretores.
1954
Uma certa tendência
Truffaut ataca a “tradição da qualidade”. Nasce a politique des auteurs.
1955
La Pointe Courte
Agnès Varda estreia. A Rive Gauche filma antes da vague ter nome.
1958
Le Beau Serge
Chabrol roda o que muitos consideram o primeiro longa da Nouvelle Vague.
1959
Cannes, o estouro
Les Quatre Cents Coups e Hiroshima mon amour. A crítica sobe a escada e entra na competição.
1960
À bout de souffle
Godard, Belmondo, Seberg, Coutard. O jump cut se torna lenda.
1962
O ano das formas
Cléo de 5 à 7, Jules et Jim, La Jetée. A vague já não é um filme: é uma gramática.
1964
O contra-campo brasileiro
Deus e o Diabo na Terra do Sol. O Cinema Novo responde à vague com o sertão.
1968
O fim de uma vague
Maio em Paris. Godard dissolve o autor no coletivo. A liberdade muda de endereço — e de método.