Varda divide o filme em capítulos com hora marcada. Cléo sai do tarô, atravessa ateliês, taxis, um cinema, o parc Montsouris. A primeira metade é um camarim: espelhos, chapéus, a voz que se escuta. A segunda é uma rua: um soldado que volta da Argélia, uma amiga escultora, o sol da tarde.
O golpe de Varda é inverter o clichê da musa. Cléo começa como objeto de olhar — inclusive o nosso — e termina como sujeito que filma a cidade com os olhos. A câmera, que a isolava em travelling, passa a compartilhá-la com o mundo.
Entre a Rive Gauche e a vague, Cléo é o filme que prova que a modernidade não era um clube de homens com a Cahiers no bolso. Era uma mulher com um relógio e uma cidade.
