O Espelho é o filme em que Tarkovsky mais se expõe e menos se explica. Poemas do pai, noticiário de guerra, um menino que é o autor e não é. A montagem não ilustra a biografia: a inventa como ícone.
A vague montava a memória por elipse ou por fotograma. Tarkovsky monta por duração: o vento no mato, o leite a derramar, a chuva no interior da ruína. O espectador não é informado — é convidado a habitar o mesmo tempo.
Observe a fronteira. Ela não está marcada. Por isso o filme parece sonho para quem procura o acontecimento no lugar errado.
