Kieślowski começa no documentário e nunca deixa de observar como se ainda estivesse ali: o acaso, os encontros, os objetos que voltam, os reflexos nos vidros, um gesto mínimo que o diálogo destruiria. A intimidade não se declara. Aparece de lado.
A Liberdade é Azul (1993) faz da cor uma personagem. O azul não ilustra a tristeza: participa dela, banha o apartamento, a piscina, os cristais. Julie tenta não sentir; o filme insiste em olhar o que ela recusa.
Se Bergman encara o rosto, Kieślowski olha o mundo ao redor do rosto. A coincidência, o detalhe, aquilo que os personagens não percebem — aí a vida acontece.

